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Blog EntryJan 23, '10 1:50 PM
for everyone

Se em algum lugar do vasto cancioneiro do samba nacional existisse alguma coisa do tipo “feiúra se põe a mesa”, certamente teria sido proferida por Dona Nhenhê. Mas, como essa série biográfica não tem tanta grana assim para investigar tal citação, comecemos de uma maneira mais sussa.

Obviamente Nhenhê não nasceu Nhenhê. Há uma grave controvérsia sobre a origem de seu nome de batismo, uma corrente de estudiosos aposta em Irenhê, enquanto que outra vertente sugere que seria Nherice. No entanto, o proprietário da barraca de cachorro quente do bairro onde a estrela nasceu jura que ela se chamava Ana Júlia, enfim.

A partir da década de 70, Nhenhê passou a ser conhecida como Nhenhê Atol, uma espécie de abreviação para o apelido Nhenhê do Atoleiro – alcunha que ela ganhou após ter bebido muito certa noite e, acidentalmente, ter ficado presa em numa poça de lama por 11 dias.

Nhenhê Atol nunca chegou a conhecer o sucesso. As rádios não tocavam sua música, empresários não vendiam seus shows e músicos detestavam acompanhá-la nas rodas de samba. Há uma lenda que o forte cheiro de Nhenhê funcionava como repelente nessas ocasiões, onde havia muito calor e suor. “Ela mascava muito alho, sabe. Sempre mascou. E isso subia pelos poros na hora da quentura... Xi, era um Deus nos acuda”, lamenta Lelo do Cavaco, que nunca na vida relou a mão num cavaquinho, já que tocava triângulo.

Dentre suas composições, letras marcadas pelos preconceitos vividos por ser mulher, negra, magra, um pouco ruiva e também levemente gordinha. Em Pedaço de barrigada, ela expressa claramente tais preceitos: “Ei que te vi aqui, meu amor, no meio da barrigada. Ai, Ada! Ai, Ada! No meio da barrigada”.

Em tempo, também não entendemos nada dessa letra, ok?

Na época dos Grandes Festivais, realizados na época pelas emissoras de tevê, Nhenhê deixou de usar o nome artístico “Atol”. Não. Ela nunca participou ou sequer se inscreveu nessas competições musicais. Apenas resolveu nunca mais usar tal nome. Coisa desse povo do samba, sabe como é.

Dizem que ela nos deixou em 1989, numa tarde de setembro. Há registros que Dona Nhenhê morreu mesmo em 1992, em meados de julho. Outros afirmam que ela está viva e é dona de uma empresa de Telemensagens na região do Cambuci, em São Paulo.

O fato é que só quem conheceu Dona Nhenhê e ouviu sua voz rouca perdurar pelo espaço, sabe do que estamos falando. Ou seja, para falar a verdade, quase ninguém.


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